Hoje tive um dia daqueles!De manhã vieram as crianças quase todas, cerca de 15, mas faltaram que me lembre, faltaram 2, a mais importante um recém nascido de mãe cigana, que só na altura do parto se descobriu estar infectada com hepatite! Nas famílias ciganas a vida tem outra dimensão, as mulheres dependem dos homens, não vão a uma consulta sózinhas, e este problema, a infecção, só ter sido diagnosticada no parto anda a criar problemas naquelas cabeças, espero que não aconteça nada. Na próxima semana temos que ir novamente a casa deles, já faltaram 2 x seguidas. Família muito jovem, este é o seu 2º filho, não sei quais são os seus rendimentos, não sei se andam nas feiras, não sei nada, mas trago esta preocupação para casa. A enfermeira que esteve comigo, não é a minha habitual, nem deu conta que as crianças faltaram, nem sequer se preocupou, se fosse a minha habitual este problema já tinha tido um encaminhamento hoje e eu não vinha preocupada. Ninguém trabalha sózinho, o nosso trabalho depende em 90% da nossa equipa, os 10% restantes têm a ver com a nossa capacidade. Depois o que mais me preocupou hoje? Este dia quase nem me deixou respirar, deixei muitos papéis para arquivar, informações para escrever, pedidos de consultas para enviar, se tivesse uma secretária só para mim, não trazia na cabeça trabalho em falta, mas não tenho, nem vou ter. Às vezes apetecia-me pensar que podia decidir no meu trabalho, e se assim fosse , tinha uma secretária a tempo inteiro e uma enfermeira e tomava conta de 3000 utentes, mas não posso, não é isso que está estipulado na nossa vida diária num centro de Saúde, por isso tenho que andar mais devagar. Não quero pensar mais no trabalho, amanhã é feriado, vou descansar e se as lojas estiverem abertas vou fazer compras de Natal no comércio local, com toda a calma, com o meu PQ, as filhas não vem, porque na 6ª feira trabalhamos todos.
O tempo frio finalmente chegou; como eu gostava de ter uma Natal com toda a família, já vai ser bom, ter as filhas e os seus companheiros, de 4 passamos a 6, agora é só esperar pelos netos e a nossa casa volta a estar cheia de amor e alegria, quem me dera ser capaz de ser tão boa avó como a minha mãe foi, e a minha avó, e as minhas bisas, tinha muita gente em casa e era muito bom. A minha avó Cachica, porque o nome era Francisca, e ficou assim, Cachica, era mãe da minha avó Maria Antónia, que era mãe da minha mãe, era uma querida, mas fazia muita asneirola, o meu pai naquela altura passava-se, e eu achava que ele não era nada compreensivo, que mal fazia ela fazer chichi de pé no quintal, ao pé da loiça que estava para lavar? A loiça lavava-se e ficava do melhor e a minha avó também, não andava inibida, porque ela antes de estar na nossa casa, sempre viveu no monte, e estava habituada a andar à vontade, só que o meu pai nunca a entendeu, nunca a desculpou, e mais, conseguiu que a minha mãe a impedisse de lavar a loiça, ela ficou aborrecida, mas fez de conta que não estava; para ela não ficar triste a gente jogava todas as noites às cartas, isso é que era uma paróida, mas o sono pregava-me partidas e a maior parte das vezes eu adormecia ao canto do lume, era muito agradável.
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